Número de centenários com plano de saúde dispara no Brasil

Juliana Kozoski
3/4/2025

Nos últimos 15 anos, o Brasil testemunhou um aumento expressivo no número de centenários com planos de saúde. De acordo com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o total de beneficiários com 100 anos ou mais quase dobrou, passando de 5.718 em 2009 para 11.187 em 2024, representando um crescimento de 95%. Esse crescimento tem sido particularmente acelerado nos últimos cinco anos, com um salto de 7.670 em 2019 para 11.187 em 2024.

Embora ainda representem menos de 1% do total de beneficiários, os centenários foram a faixa etária que mais cresceu proporcionalmente. Para efeito de comparação, entre os beneficiários de 80 a 99 anos, o aumento foi de 77%, passando de 788.317 em 2009 para 1.397.091 em 2024. Já entre os beneficiários de 60 a 79 anos, houve um crescimento de 54%, indo de 4.217.144 para 6.494.790 no mesmo período.

Os fatores que impulsionaram o aumento da longevidade

O avanço da medicina, a melhoria na qualidade de vida e o maior acesso a tratamentos especializados são fatores importantes para explicar o aumento da população centenária no Brasil. Além disso, a conscientização sobre a importância de hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de exercícios, tem contribuído significativamente para a longevidade.

Paralelamente, o desenvolvimento de novas tecnologias médicas, como medicamentos mais eficazes e tratamentos inovadores, tem permitido que muitas doenças sejam tratadas de maneira mais eficiente, prolongando a vida dos idosos. A expansão do acesso à informação sobre saúde também tem levado a uma população mais consciente e engajada no próprio bem-estar.

Outro fator relevante é a crescente procura por planos de saúde entre os idosos. Diante das incertezas sobre a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de atender adequadamente a essa população, muitos idosos e seus familiares optam pela segurança dos planos de saúde privados.

Desafios pelo envelhecimento da população

Se, por um lado, é positivo que mais pessoas estejam vivendo até os 100 anos com qualidade de vida, por outro, esse fenômeno impõe desafios significativos para o sistema de saúde suplementar. Um dos principais desafios é o aumento dos custos operacionais, uma vez que os idosos utilizam mais serviços de saúde, incluindo internações, tratamentos de doenças crônicas e procedimentos cirúrgicos.

Além disso, a longevidade demanda um número maior de profissionais especializados no cuidado com os idosos, incluindo geriatras, fisioterapeutas e enfermeiros. A necessidade de adaptação de hospitais e clínicas para atender a essa população também se torna um ponto crucial para garantir um atendimento adequado.

O mutualismo, princípio que rege os planos de saúde, depende do equilíbrio entre beneficiários mais jovens e idosos. No entanto, com o envelhecimento acelerado da população e o crescimento expressivo da demanda por serviços de saúde, esse equilíbrio pode ser comprometido, levando ao aumento das mensalidades dos planos e à necessidade de reestruturação dos modelos de financiamento.

Possíveis soluções para um sistema de saúde mais equilibrado

Diante desse cenário, algumas estratégias podem ser adotadas para garantir um atendimento de qualidade aos idosos sem comprometer a sustentabilidade financeira do sistema. Entre as principais soluções estão:

1. Investimento em prevenção e promoção da saúde

Programas que incentivem hábitos saudáveis e ofereçam acompanhamento preventivo podem reduzir a incidência de doenças crônicas e a necessidade de procedimentos mais caros. Estratégias como campanhas de vacinação, exames periódicos e incentivo à atividade física são fundamentais.

2. Uso de tecnologia na saúde

A telemedicina, por exemplo, pode melhorar o acesso ao atendimento médico, reduzir custos e evitar deslocamentos desnecessários de idosos para consultas presenciais. Além disso, o uso de dispositivos vestíveis (wearables) para monitoramento contínuo da saúde pode ajudar a prevenir complicações.

3. Aprimoramento da gestão de cuidados

Modelos de gestão baseados em acompanhamento contínuo, com equipes multidisciplinares focadas na saúde do idoso, podem garantir um atendimento mais eficiente e reduzir internações. Programas de atenção domiciliar também podem ser uma alternativa viável para otimizar os custos e melhorar a qualidade de vida dos beneficiários.

4. Flexibilização dos planos de saúde

A oferta de planos mais acessíveis e personalizados para diferentes perfis de idosos pode ajudar a equilibrar custos e garantir maior inclusão dessa população no sistema. Criar pacotes modulares que atendam às necessidades específicas de cada faixa etária pode ser uma solução viável.

5. Capacitação de profissionais de saúde

É essencial investir na formação de profissionais especializados no atendimento ao idoso, garantindo um cuidado mais humanizado e eficaz. A expansão de cursos e treinamentos em geriatria e gerontologia pode suprir a demanda crescente.

6. Parcerias público-privadas

A colaboração entre o setor público e privado pode trazer benefícios mútuos, como a ampliação do acesso a exames e tratamentos, além da implementação de políticas públicas mais eficazes para a população idosa.

A importância da adaptação das políticas de saúde

Com o envelhecimento populacional em ritmo acelerado, é imprescindível que o setor de saúde, tanto público quanto privado, se adapte a essa nova realidade. Políticas de saúde que incentivem a prevenção, promovam o envelhecimento ativo e ampliem o acesso a tratamentos inovadores são importantes para garantir um sistema sustentável.

Além disso, a criação de incentivos fiscais para empresas que investirem em programas de bem-estar para idosos pode ser uma alternativa para aliviar a pressão sobre os planos de saúde. Dessa forma, a sociedade como um todo se beneficia, garantindo qualidade de vida aos idosos sem sobrecarregar financeiramente o setor de saúde.

O crescimento do número de centenários no Brasil é um reflexo dos avanços médicos e da melhoria na qualidade de vida da população. Embora represente desafios para o sistema de saúde suplementar, também é uma conquista a ser celebrada.

Por meio de estratégias inovadoras e investimentos em prevenção e tecnologia, é possível garantir um sistema de saúde mais eficiente e preparado para lidar com essa nova realidade. Dessa forma, poderemos assegurar que os idosos não apenas vivam mais, mas que também desfrutem de uma vida longa com qualidade e dignidade.

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